Olá aventureiros!! O Dimitri falou sobre religião no mundo medieval aqui e eu resolvi pegar o vácuo. Li recentemente o livro O Herói das Mil Faces do autor Joseph Campbell, que trata sobre os padrões encontrados em mitos e histórias religiosas de vários povos e épocas e quero trazer não um resumo do livro, mas algumas ideias que podem enriquecer a narrativa do seu RPG.

criacionismo
“Que haja aventura!!”

Os sistemas de RPG já têm cenários bem definidos, mas o modo como essas coisas vieram a existir talvez possa ser explorado. Vou tratar de alguns tópicos sobre o criacionismo e como você pode chamar seu universo à existência.

 

Sabe aquele mangá que você terminou e pensou “daqui a um tempo vou ter que ver de novo para entender”? Talvez esse artigo ou o livro citado te ajudem!

 

Tudo veio do nada

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Um excerto do Hino da Criação do Rigveda hindu é uma das telas de loading do jogo Ace Combat Zero.

Muitas religiões nutrem a ideia de que a não-existência é a origem e o ponto mais sublime da existência. Acima de qualquer vontade ou força, haveria o nada e a partir daí tudo seria criado e eventualmente voltaria ao nada.

Para um exemplo menos abstrato, lembre que na física a soma de todas as forças é nula. Então, de onde essas forças vieram? Do nada, da não-força, que se desdobrou e separou as forças em vários sentidos e direções. Mas entender na teoria e perceber isso em tudo ao nosso redor são coisas completamente diferentes. Quando alguém chega ao ponto de ver o nada em tudo que vê, essa pessoa alcança a iluminação. Falaremos disso mais adiante.

Para a sua narração, criar o universo do nada significa pensar no advento do deus ou deuses que criarão a matéria e a vida. Ou pode-se criar um universo laico de um big-bang ou evento equivalente. Para uma imagem mais papável, pense que o nada é a imaginação de todos os jogadores da mesa. Antes de todos imaginarem o universo narrado era o nada. Aquele mundo só existe enquanto todos ao redor da mesa estiverem pensando nele. Ao acabar a sessão, tudo volta ao nada, sua forma verdadeira.

Ciclo cosmogônico

Depois de tudo ser criado e antes de voltar à não-existência, o mundo pode passar por vários ciclos onde tudo é destruído e volta das cinzas.

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Chameleon mantém viva uma crença milenar em UKM

Segundo Campbell (1949), os maias contam cinco desses ciclos, cada um destruído por um elemento diferente até finalmente voltar ao nada. O jogo Under a Killing Moon, que eu analisei aqui parte exatamente disso para criar a provação do herói. A seita que Tex Murphy enfrenta em UKM é liderada pelo místico maia Chameleon, que procura criar um cataclisma que reiniciará o ciclo cosmogônico. O RPG Shadowrun se passa dois ciclos após o RPG Earthdawn.

Para entender melhor esse ‘reboot’ no mundo, vamos dar o exemplo do dilúvio da Bíblia. Ele pode ser considerado o fechamento do ciclo que começou com a criação do mundo no Gênesis, que por sua vez fechou o ciclo em que a terra era ‘sem forma e vazia’. O próximo ciclo estaria descrito no Apocalipse, com o reinado de Lúcifer sobre a Terra, sua queda definitiva e o reinado de 1000 anos de Cristo antes de a Terra deixar de ser.

Opostos

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“Por algum motivo, os humanos vêem ordem e caos como coisas de certa forma opostas”

No ponto de vista do mundo criado, tudo começa a tomar forma e ordem, o que permite a subsistência e evolução da vida. Entretanto, pelo mesmo motivo, o caos se apresenta e nem tudo é claro e nada é eterno. A noção de opostos se instala em nossa mente e até na natureza e nos deixa cada vez mais longe do nada, ou da iluminação. No filme Vingadores 2, Visão e Ultron conversam com um grau de iluminação acima da média humana.

Em muitas religiões a unidade de tudo está em todos, eu sou o universo e o universo é eu. A ideia de opostos como luz  escuridão, macho e fêmea, ser e não ser é apenas uma ilusão.

Levando isso para a mesa, as ideias de temporalidade, opostos e outras questões da verdade que você escolheu para seu universo pode estar em símbolos, ser discutido por sábios e religiosos e ser uma fonte de poder para os jogadores que buscarem essa verdade.

 

Propósito dos heróis

Em termos de programação, chegamos ao nível mais alto da ideia: a parte que mais se relaciona diretamente com quem vive no universo que você criou. Não falarei da ‘jornada do herói’ mostrada no livro supra citado, mas algo mais focado na sessão de RPG.

Agora, seu universo existe, [tooltip hint=”é o conjunto de forças e/ou intenções que se materializam na(/numa) divindades. A deidade é a fonte de tudo aquilo que é divino.“]deidades[/tooltip] existem (ou não), a vida foi criada. Essa vida vai ocasionalmente tentar ‘descer um nível’ de existência. Cabe a você decidir se ao vislumbrar eles vão ser recompensados e, se sim, com poder ou morte, por exemplo.

Referências

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Neo alcança a iluminação em Matrix.

Em Matrix, Neo compreende a real natureza da realidade virtual e começa a ver todas as coisas em sua verdadeira forma – o código. A partir daí, sua capacidade de controlar ou distorcer as leis naturais desperta, pois agora ele e a natureza são um só.

Tendo em vista este aspecto, qual o real propósito dos PJs? Será que salvar um reino tem alguma importância para alguém que tem consciência do quão efêmero um povo é perante o nada? Um paladino continuaria vendo valor em seu juramento depois de ter uma experiência próxima da iluminação?

Claro, mesmo criando seu universo do nada, os PJs não precisam necessariamente saber de tudo isso até o fim da campanha, mas interessante dar a eles uma chance de tentar, mesmo sem querer. Vários símbolos, livros e pessoas podem ser pontes para a iluminação. Quanto mais interessado um PJ fica, apresente mais conflitos internos, mais dilemas morais e planeje como a elevação gradual do personagem reflete em suas habilidades e tendências.

Um homem montado num jumentinho

Outro ponto interessante é a existência de um deus ex machina no mundo. Uma pessoa (ou animal, dragão, por que não?) predestinada a iluminar todos os seres viventes cabe em seu mundo? Como as eras ‘antes do messias’ e ‘depois do messias’ se diferem? Quem acredita nele? E se ele estiver vivo na época em que a campanha ocorre e se deparar com os PJs? Imagine encontrar um jovem príncipe confuso e cada vez menos interessado na vida no começo da aventura e em certo ponto reencontrá-lo agora iluminado e descobrir que ele é o Buda!

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A cena em Metal Gear Solid 4 em que o verdadeiro motivo por trás de todos os jogos é revelado

Também há o fato de uma vontade maior controlar tudo o que acontece, inclusive os jogadores. É basicamente o que o mestre faz na mesa, mas pense em personificar essa vontade no universo criado. Providência divina, um ou mais deuses (ou até mesmo um poderoso manipulador) pode estar por trás de toda a aventura e precisava que tanto os vencedores quanto os derrotados desempenhassem esses papéis para atingir um objetivo só conhecido pelo [tooltip hint=”o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através da imitação de modelos eternos e perfeitos”]demiurgo[/tooltip]demiurgo. É o que acontece na série Metal Gear. Todas as guerras, mortes e vitórias nos últimos 50 anos foram peças de um quebra-cabeça maquinado por um grupo de pessoas para um objetivo além de qualquer motivo para os conflitos armados.

Falsos profetas

Crenças falsas também podem (praticamente devem) surgir. Algum louco pode começar a pregar alguma ideia metafísica e conseguir adeptos, ou alguém pode se aproveitar da ingenuidade de um vilarejo e controlá-lo por meio da religião. Se você criar um paraíso, um hades e um purgatório, escolha sabiamente quem é digno de qual fim e se eles podem ser invocados ou influenciar o plano dos vivos. Eles podem ser inimigos, auxiliares de jornada ou ser idolatrados por pessoas que favorecerão quem se relacionar bem com o ente.

Para voltar ao nada

Essa maneira de utilizar a religião em seu jogo é pouco ortodoxa, mas pode ser um quê a mais que surpreenderá até os mais veteranos.

Independentemente de sua crença, procure saber mais sobre outras crenças e o conteúdo gerado a partir delas. Vou deixar aqui algumas referências para sua apreciação:

O Herói das Mil Faces – o livro contém grande parte das ideias aqui apresentadas, com mais referências e explicações apropriadas.

Bíbla sagrada – boas ideias para aventuras em 2 Samuel e Atos.

O Homem que Calculava– livro maravilhoso que é em si só uma campanha baseada em lógica e ótima fonte para a cultura do Oriente Médio.

Paladin – Um Manhwa medieval em que artefatos alienígenas são vistos como seres místicos e usados como fonte de poder

The Sea of Fallen Beasts – mangá de terror que mostra o efeito de se mexer com o desconhecido

É isso galera, espero que minha intromissão nesse tópico tenha acrescentado à cultura e a os jogos de vocês. Boas aventuras!!!

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Classes: Compositor 6º, Viajante para o Passado 4º, Leitura não-popular 5º